3/14/2008

Uma boa resposta

Por que não desisto? - Por Juca Kfouri, Jornalista da Folha de SP.
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Um convite ao raro leitor para que se ponha no lugar do colunista e o ajude a achar uma boa resposta
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PONHA-SE em meu lugar.

Imagine-se aos 20 anos de idade, na USP, sonhando em fazer carreira universitária. Aí, surge um convite de uma grande editora para você ir ganhar bem num trabalho com um tema que você adora, o futebol, e que não impedirá a continuidade do curso na faculdade.

Você vai, é claro, e, quatro anos depois, fica diante da encruzilhada: ou seguir na pós-graduação em política ou abraçar de vez o jornalismo, algo que jamais tinha passado por sua cabeça, apesar de o avô materno ter sido jornalista de destaque, o primeiro repórter a encontrar a Coluna Prestes. Então você percebe que está inoculado pelo vírus do jornalismo e dá adeus à USP. A militância na imprensa logo revela que os bastidores de sua paixão são imundos, e você resolve que o leitor tem o direito de saber como as coisas funcionam, por mais que muita gente tente desestimulá-lo a seguir tal caminho, tenso, ameaçador, além de proporcionar inimigos no atacado e processos a granel.

Mas, talvez por herança paterna, o filho do promotor de Justiça não consegue arquivar sua indignação e vai à luta.

Faz até uma carreira bem-sucedida, dirige revistas importantes, trabalha para as TVs líderes no país e depois vira colunista do principal jornal nacional, além de blogueiro do maior portal de internet, âncora da emissora de rádio de mais prestígio e membro da única equipe de TV independente do Brasil.

E ganha muito mais do que imaginava que poderia ganhar como jornalista, essa profissão que ainda remunera mal e que é aviltada pelos que a utilizam para se vender como garotos-propaganda ou para os piores interesses de capitalistas sem escrúpulos, adeptos apenas do deus dinheiro.

Você, no entanto, se deu bem e, apesar de inúmeros erros, manteve seus princípios intactos, jamais se curvou aos poderosos para não mostrar o traseiro para os oprimidos (a frase é do Millôr). Está, portanto, reclamando do quê? Ponha-se no meu lugar, insisto. Você é doido por futebol, torce pelo Corinthians (outra herança paterna) e o que vê, 38 anos depois de ter começado na profissão?

Um cidadão que você denuncia há quase 20 anos, que foi devidamente desnudado na imprensa e em duas CPIs, não só resiste no poder como, mais que isso, é hoje dos cinco homens mais importantes do país, bajulado por governadores, ministros e até pelo presidente da República, a ponto de outro dia, numa cerimônia num jornalão mineiro, ter sido mais paparicado que o vice-presidente do país, também presente. Se não bastasse, o Rei se curva diante dele.

Já o seu time de coração se encontra na situação em que se encontra, não só na segunda divisão como nas páginas policiais, muito até pelo que você mesmo ajudou a revelar.

Não é para desistir de tudo, neste país em que somos traídos diariamente? Parar de dar soco em ponta de faca? Só que, se parar, o que dirão os amantes do futebol limpo ou gente como Bob Fernandes, Clóvis Rossi, Elio Gaspari, Janio de Freitas, Luis Fernando Verissimo, Sérgio de Souza e outros caros lutadores?

O jeito é continuar. Porque não tem outro jeito. E tem as netas...
 
 
 
Por que não desisto? - Por Sérgio Alvarenga, Advogado e VP Jurídico do Corinthians
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A resposta ao convite de Juca Kfouri com uma resposta pra lá de interessante.
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Caro Juca,
 
Você não respondeu minhas últimas mensagens, mas escrevo assim mesmo.
 
Receba meu plágio como um elogio, por favor. Sem dúvidas, é clara demonstração de reverência. 
 
Pois bem. Aceitei o seu convite. Pus-me no seu lugar. E enxerguei um pouco de mim. Talvez esteja sendo pretensioso. Mas se assim for, isto sou eu. 
 
Retribuo a "gentileza": ponha-se você, agora, no meu.
 
Imagine-se aos 17 anos de idade na USP, sonhando com uma carreira pública, no combate ao crime. 
 
Você vai, é claro, e, cinco anos depois, fica diante de uma encruzilhada:  ou seguir com a idéia de ser promotor de justiça ou, exatamente do lado inverso, abraçar de vez a advocacia, algo que jamais tinha passado por sua cabeça, até porque nenhum antecessor próximo tenha alcançado destaque na profissão. 
 
Então você percebe que está inoculado pelo vírus da advocacia e dá adeus ao Ministério Público. 
 
A militância na advocacia logo revela que os bastidores da sua paixão são imundos e você resolve lutar com intransigência pelos direitos constitucionais dos seus clientes, por mais que a incompreensão dos pudicos insista em confundi-lo com o próprio réu e você se mostre àqueles que se julgam arautos da moralidade como o esquisito "defensor de bandido".
 
Mas, seguramente por herança paterna, o filho do promotor de Justiça não consegue arquivar sua indignação e vai à luta. 
 
Faz até uma carreira bem sucedida, atua, normalmente com êxito, em casos de repercussão pública, é eleito dirigente de classe, fica sócio do escritório eleito, na sua área de atuação, como o mais admirado do Brasil. 
 
E ganha muito mais do que imaginava ganhar como advogado, esta profissão que, de forma cruel, remunera de forma absurdamente alta uma minoria e empurra para uma situação dificílima mais de 100 mil profissionais só em São Paulo, obrigados a sustentar-se exercendo outras tarefas para as quais nem estudaram. 
 
Você, no entanto, se deu bem e, apesar de inúmeros erros, manteve seus princípios intactos, jamais se curvou aos poderosos para não mostrar o traseiro para os oprimidos (a frase, o Juca Kfouri me ensinou, é do Millôr). Está, portanto, reclamando do quê?
 
Ponha-se no meu lugar, insisto. 
 
Você é doido por futebol, torce pelo Corinthians, não por herança paterna, mas por escolha própria, e conclui que este clube é seu também; que não é certo cruzar os braços e esperar a ajuda de Deus; que está errado deixar o objeto da sua paixão nas mãos de quem já deu mostras de não o amar; e acredita do fundo do coração que é hora de assumir sua parcela de responsabilidade, já que a postura cômoda e inerte de criticar de longe soa a você tão pouco nobre. 
 
Sem precisar, você arruma novos problemas.
 
Você se depara com a má vontade apriorística da imprensa que se mostra interessar-se prioritariamente pelos erros alheios, dando de ombros para as coisas boas.
 
E a cada dia novo vivido no ambiente carregado do clube você conhece novas pessoas que parecem nem torcer pelo Corinthians, pois sonham com seu fracasso, ainda que isto represente também o fracasso do próprio time.
 
E você lê o seu maior ídolo no futebol, que nem sequer o conhece, que não tem a menos idéia de quem você seja, se auto destruindo para você, como um iconoclasta suicida, ao atacar de maneira leviana toda uma administração que até erra, mas que tem o desejo visceral de acertar.
 
Não é para desistir de tudo, neste país em que somos traídos diariamente? Parar de dar soco em ponta de faca?
 
Só que, se parar, o que dirão as pessoas que verdadeiramente importam para você, gente como sua esposa, sua filha, seu pai, sua mãe, seus irmãos, seus amigos?
 
O jeito é continuar. Porque não tem outro jeito. E terá, oxalá terá, as netas...
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