12/07/2011

Entrevista com o presida

Fernando Dantas / Gazeta Press

Andrés Sanchez falou sobre trajetória no Corinthians e planos futuros na CBF!

Você vai se licenciar do cargo em 15 de dezembro? Falta pouco mais de uma semana.
Sanchez: Vou sair de licença para ter férias, pois preciso descansar. Até a minha saúde ficou um pouco comprometida. Mas ainda serei presidente do Corinthians. É óbvio que o Roberto de Andrade, o meu vice, já está por dentro de tudo o que quero fazer e tocará o planejamento que traçamos desde agosto, setembro. Só que continuo sendo conselheiro vitalício do clube e estou próximo da diretoria. Se conseguir fazer o Mário Gobbi como meu sucessor, então. Apesar de grupos de oposição terem se unido contra nós, com Roque Citadini, Paulo Garcia e Osmar Stábile, tentaremos dar sequência ao nosso projeto. A minha responsabilidade será até maior do que como presidente.

Como você se sente vendo a sua sala cada vez mais vazia? Consegue se imaginar levantando da cadeira, fechando a porta e entregando a chave para o próximo presidente?
Sanchez: É... Sinceramente, hoje fico pensando que passou muito rápido. Como você disse, eu estava reclamando da demora para sair da presidência, mas passou muito, muito rápido. Só que estou saindo de cabeça erguida, com um sentimento de dever cumprido como torcedor corintiano.

Você se orgulha de ter origem em torcida organizada. Em uma entrevista que fizemos no ano passado, afirmou que estava ansioso para retornar à arquibancada. Esse desejo não é utópico para um diretor de seleções da CBF?
Sanchez: Depois de uns três ou quatro meses, irei a alguns jogos do Corinthians, sim. Pode ter certeza de que você ainda vai me ver no Pacaembu muitas vezes, na arquibancada. Assistirei às partidas de outros times também, mas logicamente quero estar muito mais perto do meu. Todo mundo tem um clube de coração. É assim com os dirigentes. Respeitando todas as equipes, vou acompanhar mais a minha. Sou de arquibancada.

Também por isso, seu perfil é diferente da maioria dos dirigentes brasileiros. Gosta da imagem que tem?
Sanchez: Não vou mudar o meu jeito de ser. Sou o mesmo cidadão fora do Corinthians. Depois de virar presidente, continuei indo para o meu pagode, para o meu bar, para o meu restaurante, usando chinelo, bebendo... Às vezes, faço essas coisas um pouco menos, mas tento mudar a minha personalidade o mínimo possível. Sei que, por ser sincero, pago um preço caro. E até posso ter extrapolado em algumas situações. Em outras, não.

O seu jeito te ajudou ou atrapalhou como presidente do Corinthians?
Sanchez: O Corinthians é um time humilde. Vim de arquibancada para ser presidente desse time. A relação fica mais forte, obviamente. Mas cada um tem o seu estilo. O meu é assim, o do Mário Gobbi é outro, e por aí vai. Tanto faz. Espero que os próximos presidentes tenham sucesso, da maneira que eles forem.

Algumas pessoas falam que você foi o maior presidente da história do Corinthians...
Sanchez: Algumas também falam que fui o pior.

Quero saber a sua opinião.
Sanchez: Nem o melhor, nem o pior. Todos os presidentes tiveram a sua importância. O mais importante é o que fundou Miguel Battaglia o clube. Meu ícone como presidente é o Vicente Matheus, uma pessoa que sempre respeitei. Tive os meus méritos, assim como todos os outros.

Todos?
Sanchez: Todo mundo acerta e erra.

No que você errou?
Sanchez: Como eu disse na entrevista coletiva, agora há pouco, o principal é que deveria ter começado a fazer o CT do departamento amador junto com o do profissional. Se tivesse sido assim, as obras já estariam adiantadas. Tivemos alguns problemas de logística por causa do estádio em Itaquera. Sou oriundo de direção de categoria de base e deveria ter olhado mais para isso.

Na coletiva, você também citou a reformulação do estatuto do clube como a maior conquista da atual gestão. Qual foi o grande benefício material que você considera ter trazido ao Corinthians?
Sanchez: A mudança do estatuto foi realmente muito importante. O Corinthians não tem mais dono. A minha aprovação é alta e, mesmo assim, não vou concorrer à reeleição. Mas, se você quer saber o maior bem material, foi o Ronaldo. Sem dúvida.

Você ficou amigo do Ronaldo e sempre admitiu manter um relacionamento próximo com jogadores, inclusive saindo para se divertir com alguns. Quem foi aquele que mais te marcou no Corinthians?
Sanchez: Olha, um cara legal, que foi muito importante no processo todo, na nossa mudança de postura: William. O nosso antigo capitão é um exemplo a ser seguido.

Mas o William teve uma passagem meteórica como seu gerente de futebol. Ele também parece ter um perfil diferente do seu.
Sanchez: Foi uma passagem excelente. Infelizmente, não deu para o William continuar com a gente por causa de uma incompatibilidade. Trouxemos o Edu para o lugar dele. Mesmo assim, o William me marcou muito.

Por outro lado, no ano passado, você apontou o Felipe hoje goleiro do Flamengo como o único atleta com quem havia se decepcionado no Corinthians. Houve mais algum com quem se frustrou, daquela época até então?
Sanchez: Não.

Nem o Roberto Carlos? Ele declarou que saiu do Corinthians para o Anzhi Makhachkala, da Rússia , por causa de supostas ameaças de torcedores organizados. Você desmentiu ao dizer que a proposta era financeiramente irrecusável.
Sanchez: Foi realmente uma proposta irrecusável para um cara de 38 anos. É isso. Simples. Na época, talvez ele não me conhecesse a fundo e achasse que eu fosse dificultar a saída dele. Mas, ao contrário: eu facilitaria o máximo possível. Sei que um jogador no nível dele, com idade avançada, não poderia perder aquela oportunidade.

Você ficou magoado com a atitude dele?
Sanchez: Mas, depois, para mim, ele consertou o que disse. Respeito o Roberto Carlos. É um amigo que fiz. Ele teve uma passagem importante pelo Corinthians.

E o Adriano? Hoje, mais cedo, você parecia arrependido com a contratação dele. Acha que o Corinthians ainda precisa de um jogador de grande poder midiático, como ele, no elenco?
Sanchez: Arrependido, não. O Adriano é diferente do Ronaldo, que sempre foi único. E nós temos outros grandes jogadores. E Alex? Sheik? Willian, que irá se tornar muito bom? Liedson, que jogou vários anos na Europa, sempre com enorme sucesso? O Corinthians é uma mescla deles todos. Futebol se ganha com equipe, com grupo. Se os atletas estiverem unidos, fica mais fácil.

Como fazer para unir o elenco?
Sanchez: É mérito do treinador. Antes de contratar, a gente analisa pessoas, não só atletas. Isso ajuda. No Campeonato Brasileiro mesmo, passamos por momentos dificílimos: houve jogador indo para reserva, entrando no time, querendo jogar... Mas nunca aconteceu uma crise. A crise foi muito mais fora do Corinthians do que dentro. Foi algo que quiserem colocar aqui.

Com a derrota para o Tolima na pré-Libertadores, a crise foi forte. Naquele tempo, você podia imaginar que terminaria o ano como campeão brasileiro?
Sanchez: Mas o Corinthians terá altos e baixos sempre. Para a Libertadores, é o que venho dizendo: o clube precisa se acostumar a disputar a competição. Nós nos classificamos pela terceira vez seguida agora. O Corinthians vai ganhar a Libertadores, sim. Vai ganhar. Trabalhei para ser campeão nas minhas oportunidades, mas só um time consegue isso. Infelizmente, não fomos nós na Libertadores. Felizmente, fomos nós no Brasileiro. Ele olha de soslaio para o troféu de campeão nacional ao falar sobre a reviravolta.

Após a queda na pré-Libertadores, você enfrentou a pressão da torcida e não demitiu o Tite. Essa decisão foi fundamental para a conquista do Campeonato Brasileiro?
Sanchez: Gosto de trabalhar o dia a dia do treinador. Se tenho consciência de que ele está fazendo coisas corretas, mesmo sem resultados, acho que deve ficar. Isso é bom, válido. Ficou provado com o Mano Menezes e com o Tite.

O Adilson Batista não teve a mesma sorte.
Sanchez: Não deu para segurar, por mil problemas de planejamento entre ele e a diretoria. O Adilson não foi o único culpado naquela época. Também tive a minha culpa. Mas ele é um grande treinador, com chances de se tornar um dos maiores do Brasil. Repito que, para qualquer elenco dar certo, é importantíssimo manter o técnico.

Então o Tite renovará o contrato dele ainda nesta semana?
Sanchez: Espero que sim. Ele quer ficar. Nós queremos que ele fique. Não tem por que não renovar o mais cedo possível.

Além da renovação do Tite e dos reforços que já estão em pauta, você fará algum último ato de impacto como presidente? Ou o título brasileiro já coroou sua gestão?
Sanchez: Não haverá nenhuma surpresa. O título veio para coroar, para que todos os corintianos possam passar um Natal e um Ano Novo felizes. Quero aproveitar para dedicá-lo principalmente para o nosso presidente Lula, que muito nos ajudou. Garanto que essa conquista dará mais força para ele se recuperar do câncer. Se Deus quiser, ele dará a volta por cima.

Meses atrás, havia quem apostasse que você se despediria com a repatriação do Tevez.
Sanchez: Quando sair da Europa, o Tevez virá para o Corinthians. Não chega a ser um sonho meu. Mas ele é um grande jogador, inquestionável dentro de campo, que ajudaria muito se chegasse aqui.

Seu relacionamento com ele melhorou?
Sanchez: Continua o mesmo: não falo com ele. A gente não conversa. Estamos distantes de amigos. Mas, independentemente de qualquer contratação que tenha ou não acontecido, volto a dizer que estou saindo do Corinthians com a consciência limpa. Fiz o melhor possível para o torcedor, com erros e acertos. O meu grande mérito foi resgatar a dignidade do corintiano.

Pode soar absurdo dizer isso hoje, mas você se vê novamente como presidente do Corinthians no futuro?
Sanchez: O futuro a Deus pertence. Espero que eu não precise voltar, que o clube não necessite de mim. Mas, se tiver que retornar ao cargo, será uma grande honra.

 

 

Fonte: Terra Esportes (leia a reportagem na íntegra neste link)

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